
Sempre fui uma pessoa obstinada em criar. Sinal evidente disso foi que meu primeiro brinquedo preferido foi o Lego, e não desses de hoje em dia em que tudo vem pré-montado, mas sim aquele balde cheio de peças retangulares que, por si só, não eram nada, mas com um pouco de imaginação ofereciam possibilidades infinitas de combinação. No natal, era o papai Noel, com algodão simulando a barba. Em uma das inúmeras vitórias do Senna, foi um carro de Fórmula 1. Meus pais dizem até hoje que economizaram uma fortuna em brinquedos, pois com o Lego eu tinha tudo que queria.
Em seguida, passei a desenhar, tudo e qualquer coisa. Ná época em que o filme O Rei Leão estourou nas bilheterias, lembro-me bem que aprendi a desenhar o Simba com exatidão (em uma só pose, lógico), e reproduzia várias e várias vezes o mesmo desenho para os colegas de classe, tal qual uma impressora humana. Não muito distante veio a música, e a paixão pelo violão, instrumento cujo som puro me hipnotiza.
Por fim, a necessidade constante de criar determinou a minha escolha de carreira: Programação de Computadores. Uma das coisas mais prazerosas que existem é poder ver uma criação sua sendo útil para alguém, seja para auxiliar ou divertir. Depois de anos de faculdade, finalmente pude sair para o mercado de trabalho, crente de que estaria desempenhando meu emprego dos sonhos todos os dias. E foi aí que a coisa desandou.
O ambiente corporativo massacrante, repleto de obstáculos técnicos e humanos, criou um sentimento em relação a programação que só pode ser descrito como nojo. Diversos projetos pessoais nos quais me animava a trabalhar agora estão abandonados às traças. Depois de um dia estafante de trabalho frente a um computador, a última coisa que quero ao finalmente chegar em casa é continuar usando um computador.
E não apenas isso, as músicas que costumava compor, os desenhos e pinturas que fazia, a criatividade que norteava minha via encontra-se agora perdida, massacrada sob a pilha de obrigações da vida real. Escrever estas meras palavras tem se mostrado muito mais complicado do que costumava ser. Cada momento livre é ocupado por tarefas, compromissos, preocupações
A conclusão que tiro disso é que precisamos mais do que nunca do ócio criativo em nossas vidas, que não é simplesmente "ficar sem fazer nada", mas sim dar tempo à mente de realizar as conexões entre experiências, sonhos e decepções, e através destas conexões dar asas à nossa criatividade. Uma mente cansada e oprimida é incapaz de encontrar forças para criar.
O sociólogo italiano Domenico de Masi não apenas defende esta idéia como escreveu um livro sobre ela, entitulado "O Ócio Criativo". Em um trecho do livro, Domenico diz:
Aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção
entre o seu trabalho e o tempo livre (…) Distingue uma coisa da
outra com dificuldade. Almeja, simplesmente, a excelência em
qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir
se está trabalhando ou se divertindo.
Ou seja, reduzindo a opulência do ambiente mercantilista, não mais iremos trabalhar 5 dias para descansar 2, mas sim mesclar trabalho e descanso. A linha entre o que é corporativo e o que é pessoal se desfoca, beneficiando ambos os lados da moeda. Parece uma utopia, mas você consegue imaginar como seria genial participar de uma sociedade assim?
Fonte da citação: http://fatorw.com/2007/06/14/a-genialidade-do-ocio-criativo/
1 comentários:
nossa... eu te entendo perfeitamente bem!!!
quando eu era mais nova, minhas criações normalmente ficavam no papel... eu gostava mto de escrever, poesias em especial...
e eu tbm dançava... fiz ballet clássico, flamenco, sapateado... e minha professora de flamenco me mandava pra salinha do fundo, sozinha, com só um som na cabeça, pra poder criar novos passos...
e hj vivo eu aqui o dia inteiro na frente do computador tendo que... bom, somos programadores, vc já explicou tudo...
faz falta!! =(
p.s.: EU TENHO VONTADE DE DIVULGAR SEU BLOG PRA TODO MUNDO PQP
=P
Postar um comentário