sábado, 17 de maio de 2008

Desculpa

Existe aquela pessoa que mais me irrita no mundo. Devido aos anos de convivência turbulenta, àqueles gritos e desabafos que ficaram atravessados na garganta vibrando nas cordas vocais mas sem emitir som algum, às inúmeras verdades que foram ocultas para manter a sensação aparente de que está tudo bem. Talvez como forma de defesa comecei a tratar esta pessoa com rispidez. Pior, descaso. Qualquer palavra dirigida a mim é rebatida com um olhar atravessado, ou uma resposta monossilábica.

No último destes episódios a tensão foi mais palpável. Palavras foram ditas, palavras duras que não deveriam ser proferidas nem ouvidas. Mas foi de minha boca que saiu a palavra mais supreendente:

Desculpa.

E assim que ela ganhou voz e levantou vôo, o lugar que ela ocupava em meu interior tornou-se vazio, e foi possível perceber seu peso, ou agora ausência de, de maneira claríssima.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Roses


I've walked the distance,
I paid my dues and tried to have a go
at what I thought I knew was real, held no appeal
I've been to places, I've seen the tidings,
I bought a book of rules for every coin that I could steal
And so I came to gaze upon the stars, when they were yet unborn
And consequently, tear at my old scars, and the mask I had outworn

So when I'm crying alone
Yeah, when I'm cold as a dying stone

Grow me a garden of roses
Paint me the colors of sky and rain
Teach me to speak with their voices
Show me the way and I'll try again


domingo, 4 de maio de 2008

Simetria

A colher atingiu em cheio a lateral inferior direita do pudim. O restante do doce, carecendo de sustentação, pendeu para o lado, hesitou por um momento e por fim ruiu. Seus olhos fitavam atenciosamente a colher nas mãos da garota. Não por nenhum interesse específico na garota, ou no doce. Ou na colher.

Um olhar incomodado atravessou o seu próprio. Levantou-se e foi em direção a calçada. Ele próprio, não o olhar, ou o pudim. O pequeno homem andando iluminou-se, sugerindo uma passagem segura através da rua.

Adentrou a galeria vazia. Ainda assim, sentiu em sua alma o fluxo interminável da posse, de quem possui para quem cobiça. Sua cabeça pesava mais do que costume, mesmo sem estar usando boné hoje. Os degraus em movimento o chamavam para cima. Por nenhum motivo em específico.

Uma criança entediada o fitava com atenção em seu trajeto. Lançou um olhar incomodado, fazendo a criança buscar outro alvo para sua atenção. Estava já chegando ao topo da escada. Ele próprio, não a criança. Ou o novo alvo.

A bolsada acidental da senhora atingiu em cheio a parte inferior de sua perna direita. O restante do seu corpo, carecendo de sustentação, pendeu para o lado, hesitou por um momento e por fim desabou.

Estava novamente no começo da escada. Sua cabeça pesou mais uma vez. Não pôde conter um sorriso ao contemplar de forma tão contundente a simetria da vida. E então tornou-se leve como uma pluma. Sua cabeça, não a simetria, ou a vida.

O faltante

Engraçado.

Passei por uma época de minha vida em que realmente tudo parecia conspirar contra minha felicidade. Nestes tempos, o pensamento que dominava minha mente era: "se um dia eu tiver ao menos o mínimo do que me falta agora, jamais me sentirei assim novamente".

O tempo passou, e com ele esta terrível fase. Aos poucos conquistei tudo que necessitava. Companhia, comunicação, liberdade. Alguns por perseverança, outros por acaso.

O curioso é que, não satisfeito, um antigo companheiro indesejável resolveu dar as caras: o vazio. Porém agora mais furtivo, escolhe cuidadosamente o momento para surgir. Quando percebe uma brecha, mostra sua incômoda face, inundando-me com a sensação de que ainda falta algo.

Seria isto uma característica inerente ao ser humano, ou algo particular meu? Somos incompletos por natureza e incapazes de ser um todo, ou a peça que nos falta deve ser produzida por ninguém mais além de nós mesmos?

O conhecimento que mais elude um indivíduo é compreender a si mesmo.

Engraçado.