Existe aquela pessoa que mais me irrita no mundo. Devido aos anos de convivência turbulenta, àqueles gritos e desabafos que ficaram atravessados na garganta vibrando nas cordas vocais mas sem emitir som algum, às inúmeras verdades que foram ocultas para manter a sensação aparente de que está tudo bem. Talvez como forma de defesa comecei a tratar esta pessoa com rispidez. Pior, descaso. Qualquer palavra dirigida a mim é rebatida com um olhar atravessado, ou uma resposta monossilábica.
No último destes episódios a tensão foi mais palpável. Palavras foram ditas, palavras duras que não deveriam ser proferidas nem ouvidas. Mas foi de minha boca que saiu a palavra mais supreendente:
Desculpa.
E assim que ela ganhou voz e levantou vôo, o lugar que ela ocupava em meu interior tornou-se vazio, e foi possível perceber seu peso, ou agora ausência de, de maneira claríssima.
sábado, 17 de maio de 2008
Desculpa
Postado por Aleatório às 20:52 2 comentários
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segunda-feira, 12 de maio de 2008
Roses
I've walked the distance,
I paid my dues and tried to have a go
at what I thought I knew was real, held no appeal
I've been to places, I've seen the tidings,
I bought a book of rules for every coin that I could steal
And so I came to gaze upon the stars, when they were yet unborn
And consequently, tear at my old scars, and the mask I had outworn
So when I'm crying alone
Yeah, when I'm cold as a dying stone
Grow me a garden of roses
Paint me the colors of sky and rain
Teach me to speak with their voices
Show me the way and I'll try again
Postado por Aleatório às 10:29 2 comentários
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domingo, 4 de maio de 2008
Simetria
A colher atingiu em cheio a lateral inferior direita do pudim. O restante do doce, carecendo de sustentação, pendeu para o lado, hesitou por um momento e por fim ruiu. Seus olhos fitavam atenciosamente a colher nas mãos da garota. Não por nenhum interesse específico na garota, ou no doce. Ou na colher.
Um olhar incomodado atravessou o seu próprio. Levantou-se e foi em direção a calçada. Ele próprio, não o olhar, ou o pudim. O pequeno homem andando iluminou-se, sugerindo uma passagem segura através da rua.
Adentrou a galeria vazia. Ainda assim, sentiu em sua alma o fluxo interminável da posse, de quem possui para quem cobiça. Sua cabeça pesava mais do que costume, mesmo sem estar usando boné hoje. Os degraus em movimento o chamavam para cima. Por nenhum motivo em específico.
Uma criança entediada o fitava com atenção em seu trajeto. Lançou um olhar incomodado, fazendo a criança buscar outro alvo para sua atenção. Estava já chegando ao topo da escada. Ele próprio, não a criança. Ou o novo alvo.
A bolsada acidental da senhora atingiu em cheio a parte inferior de sua perna direita. O restante do seu corpo, carecendo de sustentação, pendeu para o lado, hesitou por um momento e por fim desabou.
Estava novamente no começo da escada. Sua cabeça pesou mais uma vez. Não pôde conter um sorriso ao contemplar de forma tão contundente a simetria da vida. E então tornou-se leve como uma pluma. Sua cabeça, não a simetria, ou a vida.
Postado por Aleatório às 23:59 1 comentários
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O faltante
Engraçado.
Passei por uma época de minha vida em que realmente tudo parecia conspirar contra minha felicidade. Nestes tempos, o pensamento que dominava minha mente era: "se um dia eu tiver ao menos o mínimo do que me falta agora, jamais me sentirei assim novamente".
O tempo passou, e com ele esta terrível fase. Aos poucos conquistei tudo que necessitava. Companhia, comunicação, liberdade. Alguns por perseverança, outros por acaso.
O curioso é que, não satisfeito, um antigo companheiro indesejável resolveu dar as caras: o vazio. Porém agora mais furtivo, escolhe cuidadosamente o momento para surgir. Quando percebe uma brecha, mostra sua incômoda face, inundando-me com a sensação de que ainda falta algo.
Seria isto uma característica inerente ao ser humano, ou algo particular meu? Somos incompletos por natureza e incapazes de ser um todo, ou a peça que nos falta deve ser produzida por ninguém mais além de nós mesmos?
O conhecimento que mais elude um indivíduo é compreender a si mesmo.
Engraçado.
Postado por Aleatório às 23:14 1 comentários
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