A colher atingiu em cheio a lateral inferior direita do pudim. O restante do doce, carecendo de sustentação, pendeu para o lado, hesitou por um momento e por fim ruiu. Seus olhos fitavam atenciosamente a colher nas mãos da garota. Não por nenhum interesse específico na garota, ou no doce. Ou na colher.
Um olhar incomodado atravessou o seu próprio. Levantou-se e foi em direção a calçada. Ele próprio, não o olhar, ou o pudim. O pequeno homem andando iluminou-se, sugerindo uma passagem segura através da rua.
Adentrou a galeria vazia. Ainda assim, sentiu em sua alma o fluxo interminável da posse, de quem possui para quem cobiça. Sua cabeça pesava mais do que costume, mesmo sem estar usando boné hoje. Os degraus em movimento o chamavam para cima. Por nenhum motivo em específico.
Uma criança entediada o fitava com atenção em seu trajeto. Lançou um olhar incomodado, fazendo a criança buscar outro alvo para sua atenção. Estava já chegando ao topo da escada. Ele próprio, não a criança. Ou o novo alvo.
A bolsada acidental da senhora atingiu em cheio a parte inferior de sua perna direita. O restante do seu corpo, carecendo de sustentação, pendeu para o lado, hesitou por um momento e por fim desabou.
Estava novamente no começo da escada. Sua cabeça pesou mais uma vez. Não pôde conter um sorriso ao contemplar de forma tão contundente a simetria da vida. E então tornou-se leve como uma pluma. Sua cabeça, não a simetria, ou a vida.
domingo, 4 de maio de 2008
Simetria
Assinar:
Postar comentários (Atom)
1 comentários:
*sem palavras*
!!!
Postar um comentário