sábado, 21 de junho de 2008

Um bom moço

O bom moço levantou-se no horário de sempre. Ajeitou o seu cabelo e fez sua barba como sempre, mantendo sua eterna aparência de confiável. Afável. Dirigiu-se para a porta da rua, e dali iniciou os passos para o emprego que mantinha por anos, dada sua segurança.

O bom moço observou as mulheres passando. Ele nunca fora um sucesso nestes termos. Sempre o legalzinho, o irmãozinho, o amiguinho. Inho, inho, inho. Mas isso não o incomodava. De fato, as pessoas que conviviam com ele não conseguiriam pensar em algo que incomodaria o bom moço. Fachada.

Alguém se aproximou por trás do bom moço em seu caminho. Pediu as horas. O bom moço, sempre solícito, estendeu seu braço, expondo por debaixo da manga da camisa o relógio que havia ganho de seu chefe. Não por algum trabalho de destaque, mas pelos anos de trabalho sólido. Previsível. Proferiu as horas em voz alta, com um sorriso no rosto. O outro homem, como agradecimento talvez, o apunhalou nas costas e levou o relógio.

No funeral do bom moço, todos se revoltavam. Tragédia, infâmia, injustiça. Como podia um moço tão bom ser vítima de tão cruel fatalidade?

Sentiam a falta de um bom moço, mas não exatamente a sua falta.

0 comentários: