sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A Guerra do Volume

Às vezes parece que a indústria da música quer falir a qualquer custo. Não é nenhum segredo que sua habitual fonte de renda na forma de vendas de CDs vem diminuindo mais do que pipi ao ar livre na Sibéria. Isto é mais conseqüência da mudança natural que a internet e o estouro dos tocadores de MP3 e celulares provocaram do que da pirataria, como os executivos das grandes gravadoras adoram alegar. O braço executivo da indústria musical, denominado RIAA (Recording Industry Association of America), tem perseguido mais e mais usuários de redes de compartilhamento de arquivos, utilizando métodos questionáveis de obtenção de "provas" e pedindo valores absurdos em disputas judiciais.

Em outros países como os Estados Unidos, as vendas de lojas virtuais de música como a iTunes Store já superam a de grandes lojas no varejo. Mas quem disse que as gravadoras vão deixar a música que você compra digitalmente ser sua? Nem a pau, eles vão atulhar de DRM para que você só possa usufruir de sua música como ELES permitirem. Existem algumas iniciativas de vendas de música sem DRM, como a Amazon Music Store ou o próprio iTunes, que possui uma parte de seu catálogo disponível DRM-free. Aqui no Brasil temos algumas iniciativas como o Sonora, mas que não empolgam, geralmente devido ao preço.

Tudo bem, isso se trata de questões judiciais e/ou financeiras, mas pelo menos a qualidade da música não é afetada, certo? ERRADO! Há uma tendência no mercado, que já data de alguns anos atrás, de cada vez mais aumentar o volume das músicas como um todo, a chamada Guerra do Volume (Loudness War), para que comparado ao concorrente, a música de uma gravadora chame mais atenção. O problema é que essa inflação artificial do volume distorce o som, pois trechos da música que já são altos por natureza atingem certo limite, e acima disso os detalhes são perdidos, enquanto que trechos que deveriam ser mais "quietos" podem apresentar algum tipo de ruído.

Tomemos como exemplo um caso que, por tratar-se de um disco altamente esperado de uma banda popular, tem ganhado mais atenção da mídia como a mais nova vítima desta guerra: o álbum Death Magnetic, do Metallica. Como forma de propaganda, todas as músicas do CD foram também disponibilizadas para download para o jogo Guitar Hero 3. Fãs músicos, ou com ouvidos mais apurados, notaram desde o dia do lançamento que a música soava estranha, em especial as guitarras distorcidas e algumas partes da bateria, mas isso apenas na versão em CD. Compararam então as formas de onda das músicas entre as duas fontes. Veja você mesmo o resultado:



A de cima é a do jogo Guitar Hero, e a de baixo é a do CD. Repare que a do jogo tem altos e baixos mais definidos, e portanto mais detalhes, enquanto que a do CD é praticamente constante. Quando questionado sobre a qualidade do material, o engenheiro de som responsável pela masterização do álbum, Ted Jensen, respondeu o seguinte.

Eu certamente concordo com a sua reação, eu bato minha cabeça contra esse muro todos os dias. Neste caso, o material que recebi já estava deste modo antes de chegar às minhas mãos. Basta dizer que eu jamais faria algo com as músicas como foi feito neste caso. Acredite em mim, eu não estou nem um pouco orgulhoso de ser associado com este álbum, e só podemos esperar que algo de bom resulte desta discussão, na forma de uma represália contra a priorização do volume acima de qualquer coisa.


Uma possível explicação para a diferença entre as fontes é que o material das músicas foi entregue mais cedo para os desenvolvedores do jogo Guitar Hero 3, visto que pela natureza do jogo eles necessitam dos canais de áudio das guitarras separados do restante da música. Talvez por isso, eles tenham obtido um material mais puro, antes da mixagem final destruidora.

Os executivos das grandes gravadoras precisam colocar suas cabeças no lugar se pretendem salvar o pouco que resta deste mercado. Que ironia não? Os líderes do mercado responsável por todo seu lucro estão conseguindo destruí-lo por conta própria.

PS: apesar de tudo, o CD Death Magnetic é muito bom, e recomendado para apreciadores da música pesada! :)

Fontes:
http://mastering-media.blogspot.com/2008/09/metallica-death-magnetic-clipping.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Loudness_war
http://www.slashgamer.com/2008/09/17/metallicas-death-magnetic-sounds-better-on-guitar-hero-when-compared-to-the-cd/

2 comentários:

Nana disse...

Nussa!!! Fiquei impressionada com isso!! Nem tinha idéia que esse tipo de coisa acontecia...
Em todo caso, quero ouvir a diferença entre as músicas do CD e a do GH!!!

Leonardo Barichello disse...

mandou bem, senhor!