terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Aleatoriedades

Hoje, em "homenagem" ao término do ano, foi sugerido aos funcionários da empresa que viessem vestidos com roupas brancas. Eu vesti uma camisa preta, em luto a minha motivação de trabalhar, que faleceu vitimada pelas atitudes das pessoas que governam o rumo do meu trabalho.

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Se você não leu os contos que escrevi aqui, peço que o faça agora se puder. São apenas três e relativamente curtos, cadastrados sob o marcador "contos". Reparou que em todos eles alguém morre no final? Isto não foi proposital, e não sei qual a razão desta morbidez. Eu já havia reparado que minha criatividade geralmente nasce em momentos de "depressão", por assim dizer, e geralmente os temas envolvendo o que é criado nestes momentos não são nada festivos. Será mais fácil? O motivo eu não sei.

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Por falar em marcadores, isto já tinha me incomodado antes e agora, pensando em como categorizar esta ladainha, bateu novamente: como eu ODEIO este marcador "reflexão". Cara, que BOSTA, soa extremamente pretensioso, e os textos categorizados com este marcador são nada mais que meus pensamentos jogados a esmo, não necessariamente destinados a causar qualquer tipo de "reflexão" por parte do leitor. Apesar disso, no momento me falta outra palavra para descrevê-los, assim como este, então enquanto penso em outra alternativa, vai ficar como reflexão mesmo. Sugestões?

Edit: agora virou divagações. :)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

CDs para conhecer 3 - Rafael Bittencourt / Brainworms I

Se você não é uma pessoa que aprecia Heavy Metal, é provável que não tenha ouvido falar de uma banda chamada Angra. Brasileiríssima, apesar da grande maioria de suas letras ser em inglês, a banda reúne músicos excepcionais que sempre mesclam o melhor da música pesada com influências brasileiras e outros sons mais inusitados. A maioria das músicas sempre foi composta pelo vocalista André Matos, famoso e/ou ridicularizado por seus agudos e falsetes, e o guitarrista Rafael Bittencourt. E é do álbum solo deste segundo, lançado em um momento em que o futuro do Angra encontra-se incerto devido a problemas empresariais e desentendimentos entre integrantes, que eu vou falar um pouco hoje.

De cara já aviso que quem espera um CD de Heavy Metal tradicional nos moldes do som do Angra irá se desapontar e muito com Brainworms I. Sem medo de inovar, Rafael pega os elementos diferenciados que já eram visíveis em suas composições na banda e, com a liberdade conferida por um álbum solo, os utiliza sem parcimônia, gerando um disco musicalmente diverso e de fácil audição. Além de tudo, é apresentada uma nova faceta desconhecida de seu talento: os vocais. Antes relegada aos backing-vocals, sua voz é excelente, e transita entre o suave e o agressivo com facilidade.

Não vou falar sobre todas as músicas do disco, mas para ilustrar a diversidade das músicas, cito alguns destaques do CD. A música de abertura Dedicate My Soul é pesada e com ritmos no melhor estilo Angra, o que pode levar o ouvinte a assumir que o restante do CD será assim. Esta impressão, porém, é rapidamente desfeita com as canções seguintes, em especial The Dark Side Of Love, uma balada bastante sentimental, e Nightfly, música extremamente variada e com diversas passagens interessantes. Em Santa Teresa, o guitarrista explora a viola caipira, criando uma atmosfera bastante relaxante. A próxima música é O Pastor, cover da banda portuguesa Madredeus, que mistura cantos gregorianos (!) com um trabalho de guitarras pesado e soturno, e os vocais mais agressivos do álbum. Temos por fim duas canções instrumentais, com destaque para Primeiro Amor, tocada somente no violão de nylon.

Recomendo muito este CD para quem está sempre buscando novas sonoridades, e posso dizer que o disco entrega isto de sobra. Vale dizer também que o algarismo romano I no título do álbum sugere que esta é apenas a primeira parte. Portanto, que venham as próximas!

PS: além do encarte, o CD vem com um livreto muito legal com a tradução oficial das letras para o português, além dos conceitos e idéias por trás de cada uma delas.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Manto

Tempos atrás, quando tudo ainda era áureo e pleno, ela teria rido frente à mera idéia de que, dada a situação, ele estaria exatamente onde está agora, com esta exata intenção em mente. Mudança, ao que parece, é a única constante da vida. No momento em que a luminosidade e a plenitude dão lugar à ausência, idéias e pensamentos se reorganizam de modo imprevisível.

A mídia repetia-se em dizer o quanto a promessa do dilúvio era implacável e repentina, ignorando porém as décadas de avisos que nosso próprio planeta provia em abundância. No entanto, nostalgia inundava sua consciência, tal qual o mundo seria em breve inundado, tornando-o imune à iminência da tragédia.

Em meio ao abrir e fechar de gavetas e armários, percorrendo todos os objetos acumulados através dos anos de seu exílio pessoal, encontrou enfim o que ele procurava. A máquina fotográfica de uso único ignorou os anos de letargia e continuava impecável, ainda com sua proteção para uso subaquático. A mesma máquina que fora comprada em antecipação à viagem de lua-de-mel, e que jamais teve a oportunidade de ser usada.

Estava agora na varanda da casa, desafiando o oceano enquanto ventos tempestuosos entrelaçavam-se em seus cabelos grisalhos. Era possível avistar a onda à distância, movendo-se lenta porém certamente em sua direção. De máquina fotográfica em punho, ele aguardava o momento certo, quando poderia manter um registro de seu confronto com o muro de água impelido por toda a força da natureza, deixando assim sua única marca em um mundo que
poderia não sobreviver para vê-la.

Já não era mais possível ver o horizonte através da água, que movia-se com fúria crescente. Ele estava, porém, mais sereno do que lembrava ter sido nos últimos 15 anos. Sorrisos e felicidade permeavam sua memória, isolando-o do temor do fim. A onda estava agora aproximando-se da praia, levantando uma névoa de areia. Até mesmo as brigas eram agora relembradas com ternura, pois apenas ao lado dela podia-se dizer plenamente vivo. A água pairava sobre a casa,
com a estatura de um colosso. Lembrou-se então do dia do acidente, que havia tomado dele toda a vida que ela trazia.

Pressionou o botão.

Antes de sequer ouvir o clique, foi envolvido por um manto, acolhedor e profuso como veludo, porém frio e escuro.