terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Ah, infância

Por algum motivo, tenho um problema com memórias de infância. Conheço pessoas bem mais velhas do que eu e que possuem lembranças vívidas de quando eram crianças, porém no meu caso é tudo meio nebuloso, com exceção de várias ocasiões isoladas. Hoje tive oportunidade de relembrar uma delas.

Não é fácil superar sua primeira "decepção amorosa". Acho que foi lá por volta dos meus 10 anos de idade, na 4a ou 5a série da escola. O nome dela era (ainda é, claro) Fernanda e sentava-se na carteira em frente à minha, proximidade esta que foi o início do nosso contato, como é de praxe. Com conversas bestas durante as aulas pegamos amizade, e com um certo tempo nos tornamos inseparáveis, mas sempre dentro da escola. Fora dela não tínhamos muito contato.

Quando um dia ela apareceu com o braço quebrado, eu copiava a matéria com capricho redobrado (ou deveria dizer com qualquer capricho, visto que este não era meu forte) para que depois ela pudesse estudar pelas minhas anotações, e ela passava o tempo todo da aula virada para trás, olhando para minha cara ou colorindo com sua outra mão um livro que estávamos utilizando em aula na época, com cores berrantes e em nada condizentes com as ilustrações (ainda tenho este livro guardado, com um astronauta amarelo e uma lua rosa).

Apesar de eu gostar imensamente de estar perto dela, em minha pobre cabeça infantil jamais passou a idéia de estar gostando de uma garota. Qual não foi a surpresa que causou então o sentimento em relação à presença do outro, que neste caso era um dos meus melhores amigos, chamado Yves. Surgiu do nada com um comentário de que o achava "bonitinho", mais um outro sobre "gostar", e por fim um pedido para que eu conversasse com ele. Aquele sentimento de inveja chegou a tornar-se insuportável, e eu não sabia sequer dizer exatamente o motivo. Fiz cara de emburrado e disse que não. Ela pediu novamente. Mantive minha posição irredutível. Ela fez cara de dó. Fui eu então ter a tal conversa com o Yves. Sem saber direito como falar nessa situação, cheguei e joquei a bomba direto no colo dele: "A Fernanda me falou que gosta de você...".

E ele: "Sério? Mas... ela é feia..."

Neste momento fui inundado novamente por um sentimento novo, um profundo desgosto por uma pessoa estar desprezando tão levianamente algo que eu queria. Sem mais uma palavra, voltei para o meu canto, pensando durante o resto do intervalo no que eu diria para Fernanda.

E eu: "Seguinte, não vou perguntar nada, se você quer saber vai lá e fala com ele"

Daí em diante, inevitavelmente ficamos mais distantes. Eventualmente ela foi para outra escola, e nunca mais tive notícias dela. Mas o engraçado é que seu nome completo ficou marcado na minha memória. Fast-forward para o dia de hoje, estava eu passeando no Orkut quando encontrei uma comunidade da classe que formou-se comigo no 3o colegial. Entre os inúmeros rostos conhecidos encontrei vários que não o eram (existem duas unidades desta escola na cidade, e apenas uma comunidade), mas um em específico que tinha um quê de familiar nos olhos. Quando vi o sobrenome, não tive dúvidas: lá estava ela, e completamente irreconhecível, não fossem meus olhos treinados.

Não vou entrar em contato ou nada assim. Além de meu perfil no Orkut ser fake (o meu oficial foi apagado há muito tempo atrás por desinteresse e alguns desentendimentos, mas mantive outro para acessar os fóruns de comunidades interessantes e ver as datas de aniversários de amigos que eu esqueço ^_^), decerto ela não se lembrará de tudo isso. Mas é interessante ver como uma marca pode permanecer tão fixa em meio a lembranças nebulosas.

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